Ele roubou, traiu, mentiu, sequestrou e quase matou diversas
vezes – a primeira delas, ao abandonar a própria sobrinha, que havia
acabado de nascer, em uma caçamba de lixo. Sem falar nas incontáveis
vezes em que blasfemou com tiradas como: “Devo ter feito pole dance na santa cruz para merecer isso”. Apesar de tudo, Félix, personagem de Mateus Solano em Amor à Vida,
caiu no gosto popular e tem tudo para receber um final feliz na trama,
que termina esta semana com a audiência média em torno dos 35 pontos no Ibope da Grande São Paulo, pelo menos um acima da antecessora, Salve Jorge – e isso graças a ele. É a vitória do vilão, em uma época marcada por malvados: de séries como Breaking Bad e Bates Motel a releituras de contos de fada pela ótica dos antagonistas, no cinema, a vilania está em primeiro plano.
Para Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP (Universidade de São Paulo) e membro da Academia Internacional de Artes e Ciências da Televisão de Nova York, além do talento de Solano, reconhecidamente o grande nome dessa produção, é Freud quem explica o sucesso de Félix. “Há uma razão de teor psicanalítico para o fascínio que o personagem exerce sobre a plateia. A sombra que todos nós possuímos estaria iluminada ou seria de certa forma resolvida pela identificação com a vilania. Não deixa de ser uma catarse.”
Essa identificação com a maldade também é apontada por Clarice Greco, outra doutora formada pela USP e autora do e-book Qualidade na TV: Telenovela, Crítica e Público (Atlas), que acrescenta um motivo quase literário para a “boa fase” dos vilões. Como personagens, diz, eles estão mais complexos e interessantes. “Houve um tempo em que a representação na novela era caricata: o mocinho todo bom, e o vilão completamente ruim. Hoje, os personagens exibem contornos sutis, com traços bons e ruins, próximos do ser humano real. Isso faz o público se identificar mais com os ícones da vilania, que em casos como o de Félix têm bom humor, sarcasmo e ousadia e deixam para trás os mocinhos mornos e sem sal.”
O bom humor é, de fato, um diferencial de Félix, que dispara ao menos uma pérola a cada capítulo. O próprio “pai” do personagem e autor das tiradas, o dramaturgo Walcyr Carrasco, acredita que a característica tenha impulsionado o “hit” Félix. “O personagem tem humor, ironia e uma grande atuação do Mateus Solano”, diz Carrasco, que já manifestou orgulho por ter criado aquela que vem se consagrando como a maior “bicha má” da teledramaturgia nacional. “Bicha má”, vale lembrar, foi uma alcunha colada a Félix já no início da novela, por uma plateia que, órfã da terrível Carminha de Avenida Brasil, sentia por ele uma espécie de paixão ao primeiro capítulo.
Os vilões do momento
Esposa grávida. Um filho com paralisia cerebral. Dois
empregos -- professor de escola pública e caixa em um lava-rápido -- que
mal pagam as contas. Respeitando a máxima de que tudo pode ficar pior, à
beira dos 50 anos, um diagnóstico de câncer no pulmão. Os médicos lhe
dão, no máximo, seis meses de vida. Com os bolsos vazios e sem poupança
que possa garantir os estudos dos filhos e segurança à mulher, Walter
White se joga no mundo das drogas. Com o alto conhecimento de química
que possui, passa a fabricar a melhor metanfetamina do Novo México, e o
sucesso da droga o empurra mais e mais para o crime.
Político de carreira, o Corregedor da Maioria da Câmara dos
Representantes dos Estados Unidos pela Carolina do Sul espera ser
nomeado Secretário de Estado. Quando o cargo não vem, o ambicioso
democrata Underwood (Kevin Spacey), elabora, revoltado, um plano de
vingança contra o novo presidente, Garrett Walker (Michael Gill), que
não cumpriu a promessa de promovê-lo. O plano inclui um conluio com uma
jornalista, a repórter Zoe Barnes (Kate Mara), e a manipulação do
deputado Peter Russo (Corey Stoll), da Pensilvânia.
Prelúdio de Psicose (1960), o clássico de terror de Alfred Hitchcock, a série Bates Motel
destrincha a doentia relação de Norman (Freddie Highmore) com a mãe,
Norma (Vera Farmiga), e mostra como o personagem se transformou no
assassino que o mundo todo conhece.
Com capa, cetro e chifres pontiagudos, além de uma voz
grave e calma, a atriz Angelina Jolie aparece como uma bruxa elegante e
sexy em Malévola, longa do diretor estreante Robert Stromberg previsto para maio nos cinemas. O filme, da Disney, é uma versão adulta de A Bela Adormecida,
conto de fadas aqui recontado pelo olhar da vilã. Não à toa a poderosa
Angelina ficou com o papel da malvada: a personagem é a protagonista da
história. A Princesa Aurora, a quem ela persegue, é vivida por Elle
Fanning.
Esqueça os versos fofos de "Eu vou, eu vou, pra casa agora
eu vou", da musiquinha que os sete anões cantavam no clássico de Walt
Disney, Branca de Neve e os Sete Anões (1937). Aliás, esqueça também a fofura e ingenuidade da própria Branca de Neve. Espelho, Espelho Meu,
que tem Julia Roberts como madrasta e algoz da princesa de pele alva, é
todo trabalhado na maldade. O longa atualiza o clássico conto dos
irmãos Grimm, transformando Branca de Neve (interpretada por Lily
Collins) em uma mulher forte e guerreira e a Rainha Má (Julia) em uma
interesseira fútil por quem é impossível não torcer, em muitos momentos
do filme.
Vilania em alta – O termo vilão data da Idade
Média. Dizia respeito, então, àquele que era o chefe ou dono de uma
vila e que, por isso, tinha poder para fazer o que bem entendesse. Com o
passar do tempo, como ocorre a muitas palavras do português, o termo se
concentrou em suas acepções negativas. Vilão passou a ser o malvado, o
cruel.
Também é antigo o fascínio que o vilão, no sentido que a palavra possui hoje, exerce sobre espectadores e leitores. Para citar um personagem que todos conhecem: quando lançado, no século XIX, o romance A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, tornou célebre nas ruas do Rio de Janeiro, então capital do país, o perverso Leôncio, a despeito de todo o sucesso da protagonista, Isaura, a quem ele amava e maltratava.
O que diferencia o período atual dos anteriores, para Clarice Greco, é a quantidade de produções ancoradas em bad guys. Entre as séries, há várias baseadas em personagens de moral condenável ou de alma atormentada, como a recém-terminada Breaking Bad, sobre um professor de química que, ao descobrir um câncer em estágio avançado, investe no tráfico de metanfetamina para criar uma herança para a família e vai afundando mais e mais no crime. Ou como House of Cards, do Netflix, cujo político ambicioso interpretado por Kevin Spacey seduz por completo o espectador. Ou ainda como Bates Motel, série inspirada em Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, que investiga as raízes do mal do perturbado Norman Bates.
No cinema, chama a atenção a leva de adaptações de contos de fada feitos sob a ótica das vilãs. Em Malévola, previsto para maio nos cinemas, é a bruxa vivida por Angelina Jolie quem comanda a trama. O longa engrossa a fila iniciada por Espelho, Espelho Meu e Branca de Neve e o Caçador, ambos adaptações de Branca de Neve lançadas em 2012. No primeiro, Julia Roberts dava as cartas como a rainha má. No segundo, a maldade cabia à sul-africana Charlize Theron.
“O vilão não representa um indivíduo, mas um estado da sociedade. Em certos períodos, os heróis perdem força porque deixam de representar a realidade, daí a preferência pelo vilão”, diz Claudino Mayer, autor do livro Quem Matou... O Romance Policial Na Telenovela (Annablume). De opinião semelhante, Mauro Alencar compara a época atual, dessas em que os heróis perdem o moral, com os anos 1970, quando Selva de Pedra, de Janete Clair, tinha uma vilã muito forte, a Fernanda de Dina Sfat, mas o público acreditava na ética do mocinho Cristiano Vilhena (Francisco Cuoco) e sobretudo na mocinha Simone (Regina Duarte). “Os vilões têm um apelo hoje que não sonhariam em ter nos anos 1970, devido ao quadro de descrença que vivemos no Brasil e no mundo.”
Vilões marcantes das novelas
Herdeira do poderoso Aristides (Gilberto Martinho),
Fernanda (Dina Sfat) é pedida em casamento pelo ambicioso Cristiano
(Francisco Cuoco), que a abandona no altar por se sentir culpado pela
suposta morte de Simone (Regina Duarte), sua mulher, que desaparece após
um acidente de carro. Simone fugia de Miro (Carlos Vereza), amigo de
Cristiano que enviou a ele uma carta recomendando que se livrasse da
artista plástica para se casar com a milionária Fernanda, carta que
Simone lê e a leva a fugir. A mocinha, no entanto, ao contrário de sua
empregada, Madalena (Tamara Taxman), sobrevive à tragédia. Deixada por
Cristiano no altar, Fernanda acaba se casando com Caio (Carlos Eduardo
Dolabella), mas não esquece nem perdoa o ex-noivo, a quem passa a
perseguir de maneira cada vez mais enlouquecida. Ainda que tivesse
alguma razão, já que havia sido enganada e abandonada, a vilã foi
execrada pelo público, que torcia pela boa Simone e por seu Cristiano.
Leôncio (Rubens de Falco) é apaixonado por sua escravra
branca, Isaura (Lucélia Santos), órfã da senzala criada como uma moça da
corte por Ester (Beatriz Lyra), mãe de Leôncio e senhora da fazenda.
Com a morte de Ester, Leôncio assume o controle da propriedade e adquire
o poder de fazer o que quiser. É assim que, não correspondido por
Isaura, toma para si a carta de alforria da escrava, cuja rejeição o
enfurece, e a submete a maus tratos e castigos cruéis.
Clássico da literatura universal desde Caim e Abel, a
rivalidade entre irmãos é representada aqui pelo conflito entre a
ex-presidiária Júlia Matos (Sônia Braga) e a socialite Yolanda Pratini
(Joana Fomm). Depois de cumprir metade da pena pela acusação de
atropelar e matar um guarda-noturno, Júlia tenta recuperar a vida e o
amor da filha, Marisa (Gloria Pires), criada pela irmã, Yolanda, que,
apegada à garota, teme perdê-la e faz o que pode para evitar essa dor.
Nem é preciso lembrar que a poderosa e insuportável
empresária Odete Roitman (Beatriz Segall) morreu ao final da trama --
fato que deu origem a um dos mais bem-sucedidos suspenses no estilo
"Quem matou?" da teledramaturgia nacional. Manipuladora sem escrúpulos,
a diretora da companhia aérea TCA determinou por muito tempo a vida dos
filhos, Afonso (Cássio Gabus Mendes) e Heleninha (Renata Sorrah), que,
fragilizada pela intervenção autoritária da mãe, investiu no alcoolismo
como fuga. No caso de Afonso, Odete foi capaz de um verdadeiro jogo de
xadrez em benefício próprio: fez um acordo com a proto-periguete Maria
de Fátima (Gloria Pires), que, em troca de se casar com o herdeiro da
rica empresária, separando-o da namorada, a jornalista Solange (Lídia
Brondi), teria de separar a própria mãe, Raquel (Regina Duarte), de Ivan
(Antonio Fagundes), como queria a maléfica Odete.
Irmã amarga, embora divertida, de Tieta (Beth Farias), Perpétua (Joana Fomm) se dedica a criar intrigas e a preservar o órgão do falecido marido, guardado em uma caixa dentro de seu guarda-roupa.
Como esquecer a chave-de-coxa de Nazaré Tedesco (Renata
Sorrah), arma com a qual manipulava os homens de que precisava para
cumprir os malévolos planos maquinados para manter ao seu lado Isabel
(Carolina Dieckmann), filha roubada de Maria do Carmo (Susana Vieira),
ainda na maternidade? Ou seu gosto por uma boa dose de conhaque? E o que
dizer da escada que usava para quebrar pescoços? Sem falar na ironia
que a acompanhava sempre, para deleite da audiência. Nazaré Tedesco é
inesquecível, mas também imperdoável.
Ele foi capaz de enganar a doce Maria Paula (Marjorie
Estiano), levando-a ao altar e depois fugindo com toda a sua fortuna, e
de trocar de nome, de Adalberto para Marconi Ferraço (Dalton Vigh), mas o
amor que sentia pela mocinha e pelo filho que tiveram juntos levou o
vilão a ser absolvido, em um processo que antecipava o atual humor do
público.
Ela deu um golpe em um pobre coitado vivido por Tony Ramos,
que ao perder a casa, tudo o que ele tinha, saiu desesperado pela rua e
acabou atropelado por um jogador de futebol, Tufão (Murilo Benício).
Depois, despejou a enteada, Nina (Débora Fallabela na fase adulta),
então completamente órfã, em um lixão. Ainda assim, Carminha (Adriana
Esteves) caiu nas graças da audiência, que lhe devotou memes e trend
topics no Twitter, e acabou salva pelo autor, João Emanuel Carneiro.
O fim de Félix – Embora destaque
características perenes de Félix e o talento de Mateus Solano como
razões para a popularidade do personagem, Walcyr Carrasco deu umas
“mexidinhas” na trama para garantir ao vilão a possibilidade de se
regenerar. Enquanto humanizava Félix, mostrando como o desajuste da
família havia produzido o desequilíbrio emocional do vilão, que passou
de algoz a vítima em poucos capítulos, ele intensificou a crueldade de
Aline (Vanessa Giácomo). Em poucos dias, ela cegou o marido, César
(Antonio Fagundes), em quem vem dando um golpe, rejeitou diversas vezes o
próprio filho e foi cúmplice do assassinato da tia, Mariah (Lúcia
Veríssimo). Foi como se Carrasco indicasse ao espectador que Félix tem
limites, porque nunca chegou aonde Aline chegou.
Para pavimentar de vez o caminho da regeneração, Carrasco submeteu Félix a um calvário. O personagem foi expulso de casa pela própria “mami maravilha”, como chama a amada mãe, Pilar (Susana Vieira), e teve as portas do mercado de trabalho fechadas pelo pai, César, que, além de admitir que nunca o amou, queimou o filme do filho para uma poderosa head-hunter. Sem dinheiro no bolso, teve de se abrigar na casa da “brega” Márcia (Elizabeth Savalla), que deu a ele a estrutura familiar que jamais teve. Foi aí que Félix começou a mudar – virada que também serve à defesa dos valores tradicionais, como o afeto e a família.
Se por vezes parecem forçadas, as soluções de Carrasco seguem a lógica do melodrama, gênero fundante da novela brasileira. “No melodrama tudo é possível, o importante é vivenciar fortes emoções”, diz Claudino Mayer. “Entre tantas reviravoltas mirabolantes, pode surgir inclusive a redenção do vilão que o público aprova”, sugere.
Se o final do personagem será o da felicidade ao lado do “carneirinho” Niko (Thiago Fragoso), como deseja parte da audiência, Walcyr Carrasco não entrega, mas a chance é grande. Além de atender à demanda popular, essa seria mais uma forma de o autor destacar Félix dentro da galeria dos maiores vilões da TV nacional. Onde ele já está, com toda a certeza.
O melodrama em 'Amor à Vida'
FONTE: "Melodrama: aspectos gerais do gênero matriz da
telenovela", estudo da professora Claudia Braga, da UFSJ (Universidade
Federal de São João del-Rei), e Mauro Alencar, doutor em telenovela pela
USP
Jacques (Julio Rocha) dá em cima de Pilar (Susana Vieira)
Um dos traços do melodrama, a tipificação de personagens é marcante em Amor à Vida.
O que não faltam são personagens a se repetir na novela: o médico jovem
e bonitão que procura seduzir pessoas para ascender profissional e
socialmente (Jacques, interpretado por Julio Rocha, já investiu no vilão
Félix e nas socialites Pilar e Priscila); a periguete que quer subir na
vida a qualquer custo (Valdirene, personagem de Tatá Werneck, foi atrás
de Neymar Gusttavo Lima e Vitor Belfort, só para citatr alguns famosos
em que tentou aplicar o golpe da barriga); o bonzinho que é sempre
enganado pela amada e sempre a perdoa (Carlito, papel de Anderson di
Rizzi, chamado de "corno" incontáveis e merecidas vezes na trama); a
madame falida que procura um homem para sustentar a sua mansão decadente
(Gigi, vivida por Françoise Forton, não fez outra coisa na novela).
Literariamente, a trama perde. Mas o martelar, se chega a ser irritante
em alguns momentos, ajuda a fixar o folhetim no gosto popular. Essa,
aliás, é outra característica do melodrama: achado pela crítica, ele é
abraçado pelo público.
Márcia (Elizabeth Savalla) abriga e conta a Félix (Mateus Solano) que ele perdeu um irmão na infância
Quem não estranhou quando a ex-chacrete Márcia (Elizabeth
Savalla) se lembrou de repente de ter sido babá do malvado Félix (Mateus
Solano) e passou a chamá-lo de "menininho", após meses sentindo
calafrios ao encontrar com ele no folhetim, como quem via o diabo pela
frente? E quando a governanta Lídia (Angela Rebello) apareceu do nada
com uma filha, Natasha (Sophia Abrahão), para disputar a herança de
Nicole (Marina Ruy Barbosa) com os golpistas Thales (Ricardo Tozzi) e
Leila (Fernanda Machado)? Pois essas mudanças repentinas na trama, que
para a maior parte do público soam como remendos do autor na história,
são parte da estrutura do melodrama, gênero sempre disposto a mexer com a
emoção do espectador. Para o bem e para o mal.
Caio Castro faz cara de inteligente ao encarar um livro em 'Amor à Vida'
Característica forte especialmente no melodrama latino, ela tem grande presença nas telenovelas brasileiras. Em Amor à Vida,
Walcyr Carrasco não lançou uma campanha "civilizadora", mas várias. Pôs
livros na mão de praticamente todos os personagens para incentivar a
leitura no país, encaixou palavras contra o mensalão na boca do médico
César (Antonio Fagundes), alertou para os ricos do câncer de mama com a
doença da advogada Silvia (Carol Castro), defendeu o direito à
felicidade na terceira idade com Lutero (Ary Fontoura) e levantou a
bandeira da antipsiquiatria no episódio da internação de Paloma (Paolla
Oliveira) em uma clínica adeptada do choque elétrico -- internação
armada maquiavelicamente por seu irmão, o danado do Félix (Mateus
Solano).
Aline (Vanessa Giácomo) fala sozinha em capítulo de 'Amor à Vida'
Sabe aquela coisa do personagem falar sozinho para
explicitar seus planos ao espectador ou para explicar a ele, do modo
mais mastigadinho, o que está acontecendo na trama? Outra herança do
melodrama. Para ficarmos em um único exemplo: em cena exibida em agosto,
Aline (Vanessa Giácomo) descobre que César (Antonio Fagundes) quer a
estilista Edith (Bárbara Paz) de volta à sua casa não apenas para fingir
um casamento de fachada com Félix (Mateus Solano), seu filho gay, mas
também porque os dois têm um grande segredo em comum. Aline se aproximou
do médico e se tornou sua amante para vingar a própria família -- ela é
sobrinha da mãe biológica de Paloma, Mariah (Lúcia Veríssimo), deixada
por César -- e obviamente quer saber de que segredo se trata, porque
pode se valer dele contra o médico. Edith se nega a revelar e, depois de
se despedir e sair de cena, Aline aparece falando sozinha. "Preciso
descobrir qual é esse segredo." Coisas assim aconteceram inúmeras vezes
na trama. Uma dureza de aguentar, de fato.
Amarilys (Danielle Winits) entra em pânico ao som de uma trilha de terror
Barracos, atos operísticos com cenas grandiloquentes,
interpretações acima do tom, arroubos de emoção, atitudes excessivamente
cruéis de alguns personagens. O universo do melodrama é de alta
voltagem -- é espetaculoso. E Amor à Vida seguiu isso à risca,
muitas vezes beirando o ridículo. Personagens se engalfinharam em
momentos de histeria, atores exageraram na carga dramática exigida por
seus papéis, vilões mataram, sequestraram, cegaram suas vítimas. Chegou a
ser patético, mas Carrasco conseguiu manter a trama aquecida e a
audiência, ligada.
Logo na abertura, Amor à Vida disse a que veio: a versão de Maravida, de Gonzaguinha, na voz do sertanejo Daniel, soou histérica, lacrimogênea... melodramática. O público chegou a reclamar e aGlobo interveio,
dando maior destaque à parte instrumental da canção. Mas não a tirou do
ar. A faixa, prenúncio de uma trilha marcada por instrumentos
estridentes, momentos tristes tecidos por violinos e caixinhas de música
que pareciam chamar Freddy Krueger à berlinda, é outra prova da
filiação da novela ao gênero melodrama.
No melodrama, o vilão é geralmente punido ao final da
história, que costuma ter um fundo moralista. Mas também pode haver uma
reviravolta que justifique a sua absolvição. No caso de Félix (Mateus
Solano), dá para dizer que a reviravolta -- o castigo -- teve início
muito antes, e, portanto, pode estar concluída. O vilão vem se
regenerando há semanas, em um processo que começou como um calvário:
expulso de casa e difamado no mercado de trabalho, Félix foi, sem nenhum
tostão no bolso, morar na periferia, onde comeu o hot dog que o
diabo amassou. Com humildade e com afeto -- o afeto de Márcia, que deu a
ele o amor que a família sempre negou --, Félix se transformou. O autor
não confirma, mas é grande a chance de um final feliz para o
personagem.
Para Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP (Universidade de São Paulo) e membro da Academia Internacional de Artes e Ciências da Televisão de Nova York, além do talento de Solano, reconhecidamente o grande nome dessa produção, é Freud quem explica o sucesso de Félix. “Há uma razão de teor psicanalítico para o fascínio que o personagem exerce sobre a plateia. A sombra que todos nós possuímos estaria iluminada ou seria de certa forma resolvida pela identificação com a vilania. Não deixa de ser uma catarse.”
Essa identificação com a maldade também é apontada por Clarice Greco, outra doutora formada pela USP e autora do e-book Qualidade na TV: Telenovela, Crítica e Público (Atlas), que acrescenta um motivo quase literário para a “boa fase” dos vilões. Como personagens, diz, eles estão mais complexos e interessantes. “Houve um tempo em que a representação na novela era caricata: o mocinho todo bom, e o vilão completamente ruim. Hoje, os personagens exibem contornos sutis, com traços bons e ruins, próximos do ser humano real. Isso faz o público se identificar mais com os ícones da vilania, que em casos como o de Félix têm bom humor, sarcasmo e ousadia e deixam para trás os mocinhos mornos e sem sal.”
O bom humor é, de fato, um diferencial de Félix, que dispara ao menos uma pérola a cada capítulo. O próprio “pai” do personagem e autor das tiradas, o dramaturgo Walcyr Carrasco, acredita que a característica tenha impulsionado o “hit” Félix. “O personagem tem humor, ironia e uma grande atuação do Mateus Solano”, diz Carrasco, que já manifestou orgulho por ter criado aquela que vem se consagrando como a maior “bicha má” da teledramaturgia nacional. “Bicha má”, vale lembrar, foi uma alcunha colada a Félix já no início da novela, por uma plateia que, órfã da terrível Carminha de Avenida Brasil, sentia por ele uma espécie de paixão ao primeiro capítulo.
Os vilões do momento
Walter White
Francis J. Underwood
Norman Bates
Malévola
A rainha má de Branca de Neve
Também é antigo o fascínio que o vilão, no sentido que a palavra possui hoje, exerce sobre espectadores e leitores. Para citar um personagem que todos conhecem: quando lançado, no século XIX, o romance A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, tornou célebre nas ruas do Rio de Janeiro, então capital do país, o perverso Leôncio, a despeito de todo o sucesso da protagonista, Isaura, a quem ele amava e maltratava.
O que diferencia o período atual dos anteriores, para Clarice Greco, é a quantidade de produções ancoradas em bad guys. Entre as séries, há várias baseadas em personagens de moral condenável ou de alma atormentada, como a recém-terminada Breaking Bad, sobre um professor de química que, ao descobrir um câncer em estágio avançado, investe no tráfico de metanfetamina para criar uma herança para a família e vai afundando mais e mais no crime. Ou como House of Cards, do Netflix, cujo político ambicioso interpretado por Kevin Spacey seduz por completo o espectador. Ou ainda como Bates Motel, série inspirada em Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, que investiga as raízes do mal do perturbado Norman Bates.
No cinema, chama a atenção a leva de adaptações de contos de fada feitos sob a ótica das vilãs. Em Malévola, previsto para maio nos cinemas, é a bruxa vivida por Angelina Jolie quem comanda a trama. O longa engrossa a fila iniciada por Espelho, Espelho Meu e Branca de Neve e o Caçador, ambos adaptações de Branca de Neve lançadas em 2012. No primeiro, Julia Roberts dava as cartas como a rainha má. No segundo, a maldade cabia à sul-africana Charlize Theron.
“O vilão não representa um indivíduo, mas um estado da sociedade. Em certos períodos, os heróis perdem força porque deixam de representar a realidade, daí a preferência pelo vilão”, diz Claudino Mayer, autor do livro Quem Matou... O Romance Policial Na Telenovela (Annablume). De opinião semelhante, Mauro Alencar compara a época atual, dessas em que os heróis perdem o moral, com os anos 1970, quando Selva de Pedra, de Janete Clair, tinha uma vilã muito forte, a Fernanda de Dina Sfat, mas o público acreditava na ética do mocinho Cristiano Vilhena (Francisco Cuoco) e sobretudo na mocinha Simone (Regina Duarte). “Os vilões têm um apelo hoje que não sonhariam em ter nos anos 1970, devido ao quadro de descrença que vivemos no Brasil e no mundo.”
Vilões marcantes das novelas
Fernanda, de 'Selva de Pedra' (1972)
Leôncio, de 'Escrava Isaura' (1976)
Yolanda Pratini, de 'Dancin' Days' (1978)
Odete Roitman, de 'Vale Tudo' (1988)
Perpétua, de 'Tieta' (1989)
Nazaré Tedesco, de 'Senhora do Destino' (2004)
Marconi Ferraço, de 'Duas Caras' (2007)
Carminha, de 'Avenida Brasil' (2012)
Para pavimentar de vez o caminho da regeneração, Carrasco submeteu Félix a um calvário. O personagem foi expulso de casa pela própria “mami maravilha”, como chama a amada mãe, Pilar (Susana Vieira), e teve as portas do mercado de trabalho fechadas pelo pai, César, que, além de admitir que nunca o amou, queimou o filme do filho para uma poderosa head-hunter. Sem dinheiro no bolso, teve de se abrigar na casa da “brega” Márcia (Elizabeth Savalla), que deu a ele a estrutura familiar que jamais teve. Foi aí que Félix começou a mudar – virada que também serve à defesa dos valores tradicionais, como o afeto e a família.
Se por vezes parecem forçadas, as soluções de Carrasco seguem a lógica do melodrama, gênero fundante da novela brasileira. “No melodrama tudo é possível, o importante é vivenciar fortes emoções”, diz Claudino Mayer. “Entre tantas reviravoltas mirabolantes, pode surgir inclusive a redenção do vilão que o público aprova”, sugere.
Se o final do personagem será o da felicidade ao lado do “carneirinho” Niko (Thiago Fragoso), como deseja parte da audiência, Walcyr Carrasco não entrega, mas a chance é grande. Além de atender à demanda popular, essa seria mais uma forma de o autor destacar Félix dentro da galeria dos maiores vilões da TV nacional. Onde ele já está, com toda a certeza.

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