Imagine colocar o dedão em um detector eletrônico e, 20 segundos
depois, saber se você tem ou não malária. Assim é uma técnica
demonstrada como potencialmente viável num estudo publicado na revista
da Academia de Ciências dos EUA, a "PNAS".
As vantagens de usar esse aparelho seriam revolucionárias em termos
de saúde pública. Serviria para monitorar uma doença tropical letal
causada por picadas de mosquitos que chupam o sangue –e, no processo,
transferem o parasita causador da enfermidade ao seu organismo.
A malária é uma doença de países pobres, embora no passado fosse
presente em quase toda a Europa. Hoje mata sobretudo crianças na África.
A incidência da doença caiu na última década, mas ainda é devastadora.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a malária afetou 207
milhões de pessoas e matou 627 mil em 2012, apesar de ser uma doença
relativamente fácil de prevenir (com mosquiteiros e inseticida) e de
curar (com fármacos), embora o parasita tenha desenvolvido resistência a
muitas drogas. A boa notícia é que as mortes caíram 45% desde o ano
2000.
Mas a boa notícia tem um lado problemático. Quanto mais um país
fica livre da doença, menos ele tende a investir na sua detecção,
correndo o risco de uma epidemia voltar de repente.
Turistas de regiões sem malária são especialmente vulneráveis quando visitam locais onde a doença é comum –como um italiano que vai à Tanzânia ou um paulista que passeia na Amazônia.
Turistas de regiões sem malária são especialmente vulneráveis quando visitam locais onde a doença é comum –como um italiano que vai à Tanzânia ou um paulista que passeia na Amazônia.
Logo, uma técnica simples, barata, capaz de ser usada
rotineiramente por pessoal sem treinamento especializado seria uma ótima
solução para monitorar a doença.
Foi o que fez a equipe de Dmitri Lapotko, da Universidade Rice, de
Houston, Texas, um pesquisador natural de Belarus que dirige um
laboratório binacional na instituição americana.
Lapotko e colegas usaram pulsos ultrarrápidos de laser para
detectar uma substância produzida pelo parasita da malária ao invadir
células vermelhas do sangue.
O parasita tem um ciclo de vida no mosquito transmissor e no ser
humano. Ataca o fígado e as células do sangue. Ao invadir o glóbulo
vermelho, digere a hemoglobina e cria um subproduto, chamado de cristais
de hemozoína.
O pulso de laser energiza a hemozoína e produz uma pequena bolha de
vapor, detectável pelos instrumentos dos cientistas. Os experimentos
envolveram células humanas e camundongos.
Foi possível achar uma célula infectada em meio a 1 milhão de células saudáveis. Como não houve dano às células normais ou aos camundongos, a técnica vai agora ser testada em humanos.
Foi possível achar uma célula infectada em meio a 1 milhão de células saudáveis. Como não houve dano às células normais ou aos camundongos, a técnica vai agora ser testada em humanos.
"Esperamos começar em poucas semanas. Será a primeira demonstração
em humanos da tecnologia em um número limitado de pacientes", disse
Lapotko à Folha.
O cientista está otimista quanto aos resultados e acredita que um
aparelho simples baseado nessa tecnologia poderia testar 200 mil pessoas
por ano, bem mais rápido do que com os testes atuais –e pela metade do
preço. O cientista acredita que, em um ano após a obtenção de
financiamento –algo que o grupo ainda não tem–, o aparelho estaria
disponível às clínicas.
Quando o laser atinge a célula infectada, ele faz mais do que
detectar o parasita: ele explode o alvo. Ou seja, a técnica teria
potencial terapêutico? "Sim, já demonstramos o efeito terapêutico, e o
estudo está sendo enviado para publicação", diz Lapotko.
Uol

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